América Latina como hub digital: Variáveis logísticas para escalar data centers na região

A viabilidade de um campus de data center na América Latina é determinada na etapa de seleção do local. O acesso oportuno à energia, a escalabilidade em bloco a bloco e a integração elétrica robusta moldam tanto as operações iniciais quanto a expansão futura. Examinamos Querétaro, Atacama e São João da Barra.

A implantação eficaz de data centers depende da interação de variáveis críticas: segurança energética, esquemas eficientes de resfriamento, conectividade e previsibilidade regulatória. Esses fatores são universais, porém, sua maturidade e alinhamento variam significativamente entre os mercados.

Na América Latina, essa combinação determina se um projeto pode escalar de forma eficiente e manter continuidade operacional — ou se permanece exposto a riscos estruturais desde o início.

Essa dinâmica possui fundamento concreto. Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), a demanda de eletricidade associada a data centers em países da América do Sul deve atingir aproximadamente 36 TWh até 2030, 64 TWh até 2040 e 86 TWh até 2050.

Esse crescimento representará uma parcela substancial do aumento líquido da demanda de eletricidade na região, impulsionado por novas cargas de alto consumo em operação contínua.

Nesse contexto, a energia vem emergindo como determinante estrutural da expansão digital. Sua disponibilidade, segurança e custo influenciam não apenas a viabilidade operacional, mas também o ritmo de crescimento, a trajetória de futuras expansões e a capacidade de sustentar operações críticas ao longo do tempo.

Isso requer investimento sustentado tanto em infraestrutura elétrica quanto em novos ativos de geração capazes de atender, de forma confiável, a um setor emergente e intensivo em energia.

Em particular, o acesso a fontes de energia renováveis não convencionais, como solar e eólica, combinado com capacidade firme e marcos regulatórios transparentes, está redefinindo onde a infraestrutura digital de grande escala pode ser implantada de forma viável.

Essas condições não estão presentes de forma uniforme em todos os mercados. O Chile, o Brasil e o México ilustram como a integração dessas fontes com infraestrutura elétrica e regulamentações claras cria oportunidades tangíveis — bem como restrições — que devem ser abordadas na etapa de seleção do local.

Chile: Solar de escala industrial e maturidade regulatória

Na prática, a decisão de implantar ou expandir a capacidade de um data center depende da certeza operacional de longo prazo que um mercado pode oferecer.

Nesse aspecto, o Chile se distingue ao combinar estabilidade regulatória, alta penetração de renováveis e um ambiente institucional previsível para projetos de infraestrutura crítica. Simultaneamente, o congestionamento de transmissão e as restrições de capacidade em determinados pontos de conexão do sistema elevaram a seleção territorial como variável decisiva para viabilizar novas instalações.

Nesse contexto, a Região de Atacama está emergindo como uma das alternativas mais atrativas para operações intensivas em energia, concentrando nova capacidade de geração renovável e oferecendo condições favoráveis para estruturar crescimento energético em escala. A região registra alguns dos mais altos níveis de irradiação solar globalmente, o que sustenta a geração de grande escala e viabiliza soluções híbridas de energia que combinam renováveis e armazenamento, reduzindo a exposição à volatilidade e melhorando a firmeza do suprimento para cargas críticas.

A escala já é tangível. Relatórios regionais indicam que, em setembro de 2024, Atacama possuía aproximadamente 5.155 MWp de capacidade instalada, com matriz de geração dominada por renováveis, em especial por energia solar.

Para tomadores de decisão, a mensagem é clara: isso não representa uma aposta em um cluster emergente, e sim um investimento em um ecossistema com massa crítica  de elétrica e experiência operacional, capaz de integrar armazenamento e converter a abundância solar em perfis de suprimento firmes.

O Chile complementa essa base energética com ativos digitais significativos. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia, Conhecimento e Inovação, o país mantém 62.000 quilômetros de infraestrutura de fibra óptica, conexões a uma rede de cabos submarinos de 69.000 quilômetros e mais de 8 milhões de dispositivos conectados a redes 5G. Essa combinação impulsionou a rápida expansão da infraestrutura de data centers, que passou de 35 MW em 2013 para 198 MW em 2023.

Esse crescimento ocorre paralelamente à acelerada expansão da infraestrutura digital do país e traz restrições tangíveis para novos projetos ao primeiro plano: acesso à água para processos de resfriamento, prazos de interconexão e disponibilidade de terrenos próximos à infraestrutura elétrica. Esses fatores já estão incorporados à agenda de políticas públicas. O Plano Nacional de Data Centers (PDATA) estabelece um roteiro para viabilizar o crescimento do setor, sob critérios de sustentabilidade, de uso eficiente de recursos energéticos e hídricos e de descentralização territorial.

Em conjunto, o Chile combina maturidade regulatória com uma base renovável robusta, enquanto Atacama oferece uma vantagem solar distinta que exige decisões precisas no desenho energético. Nesse ambiente, a experiência da Atlas Renewable Energy em integrar geração renovável a sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) viabiliza a conversão da abundância renovável em suprimento firme, reduz riscos de interconexão e fortalece a continuidade operacional de data centers.

 Brasil: Escala comprovada, conectividade e diversidade energética

Para organizações que buscam implantar capacidade digital de grande escala, apoiada por energia limpa e conectividade robusta, o Brasil se destaca como um dos mercados mais estabelecidos da América Latina, com um ecossistema de operadores e de infraestrutura que já demonstrou capacidade de executar em larga escala.

Sua matriz diversificada — hidrelétrica, solar e eólica — proporciona resiliência, enquanto a presença de operadores globais e de marcos regulatórios com incentivos incorporados reforça sua competitividade.

Nesse contexto, São João da Barra e o complexo industrial de Porto do Açu, localizados no Rio de Janeiro (RJ), representam plataformas projetadas para crescimento em fases. A área combina terreno industrial disponível, acesso ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e condições favoráveis de energia e água. Também estão avançando iniciativas para desenvolver data centers de hiperescala sob esquemas de campus modulares, o que aumenta a previsibilidade de execução.

Segundo estudo da consultoria JLL, o complexo possui infraestrutura de transmissão de 500 kV, com capacidade da ordem de 1 GW, que, no momento da análise, estava em fase de comissionamento. Isso sustenta o desenvolvimento faseado de campi de data centers, com maior previsibilidade na interconexão e no crescimento de carga, ao lado de projetos de geração renovável com potencial multigigawatt para suprir essas instalações.

Essa tese é validada por meio de uma atividade de mercado tangível. A Reuters reportou a expansão de operadores globais, como Equinix no Brasil, ao lado do avanço de players como Ascenty, ODATA (Aligned), Elea e Tecto — unidade de data centers da V.tal — refletindo um ciclo de crescimento sustentado e a capacidade do país de suportar implantações de grande escala.

Embora o Brasil enfrente desafios — incluindo a complexidade regulatória e o imperativo de planejamento em resposta a eventos climáticos extremos — a escala de seu sistema elétrico e a sua capacidade de absorção continuam a posicioná-lo como uma opção atrativa para grandes instalações. Nesse marco, o Regime Especial Tributário para Serviços de Data Center (ReData), implementado em 2025, reduz atritos de investimento e alinha o desenvolvimento do setor aos objetivos de sustentabilidade, por meio do uso obrigatório de energia limpa.

Esse contexto é reforçado pela evolução do marco regulatório brasileiro sobre armazenamento de energia, que vem começando a posicionar sistemas de baterias (BESS) como componente material para gerenciar flexibilidade, backup e qualidade de energia para cargas críticas, fortalecendo a viabilidade de operações digitais de grande escala.

Coletivamente, regiões como São João da Barra, ancoradas pelo complexo de Porto do Açu, posicionam o Brasil em um ambiente em que a escala do sistema, a capacidade de absorção e a evolução regulatória ajudam a reduzir o time-to-power e a sustentar operações de missão crítica com maior previsibilidade — combinação decisiva para implantações de hiperescala e cargas intensivas como IA e HPC.

México: Um Hub Estratégico com Proximidade ao Mercado dos Estados Unidos

O México ocupa uma posição estratégica para empresas que buscam integrar sua infraestrutura digital às cadeias de suprimento globais e operar em proximidade ao maior mercado consumidor do mundo. Sua adjacência aos Estados Unidos — onde, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda de eletricidade associada a data centers deve mais do que dobrar até 2030, impulsionada pela expansão de nuvem e inteligência artificial — posiciona o país como nó natural para estratégias regionais de baixa latência e expansão faseada.

Nessa paisagem, Querétaro consolidou sua posição como o principal hub de data centers do México. Grandes plataformas de nuvem já operam infraestrutura no estado.

A Microsoft lançou sua primeira região de nuvem no país; o Google Cloud anunciou sua região do México no mesmo território; e a AWS comprometeu investimentos substanciais para expandir a capacidade. Estes são complementados por projetos de hiperescala, como o da CloudHQ, que anunciou o desenvolvimento de um projeto multibilionário com centenas de megawatts de capacidade crítica.

A concentração de operadores confirma tração de mercado. Em Querétaro, operam empresas como KIO Networks, Oracle, Equinix, ODATA, Ascenty, Digital Realty, Zenlayer e CloudHQ, segundo o registro publicado pela CANACINTRA San Juan del Río.

A presença simultânea de provedores de hiperescala, colocation e edge estabelece o estado como principal ponto de interconexão para infraestrutura digital fora do Vale do México.

Fatores técnicos explicam essa migração. O estado combina conectividade de fibra de alta capacidade, proximidade à Cidade do México e corredores industriais em direção aos Estados Unidos, disponibilidade de terreno industrial e um ambiente geograficamente estável para infraestrutura crítica.

Esses fatores reduzem o atrito de execução e viabilizam implantações em fase — variável crítica em projetos de grande escala.

O desafio primário reside em garantir energia renovável por meio de contratos de longo prazo em um ambiente regulatório em transição. Adicionalmente, o estresse hídrico e os requisitos ambientais já são integrados às análises de desenho e aos processos de licenciamento de novas instalações.

Por isso, a seleção de local e de parceiro energético é crítica para sustentar a viabilidade operacional, assegurar a conformidade regulatória e manter a estabilidade de custos de longo prazo.

Apesar dessas variáveis, para empresas com estratégia regional integrada, o México — especialmente Querétaro — permanece um componente essencial da paisagem de data centers da América Latina: combina demanda demonstrada, proximidade ao mercado dos Estados Unidos e um ecossistema já operando em escala.

Escolher o local correto significa alinhar energia e estratégia

Ao avaliar onde há condições ótimas para construir data centers na América Latina, a conclusão é inequívoca: o México, o Chile e o Brasil concentram os ambientes mais favoráveis para a implantação de grande escala.

Sua combinação de capacidade energética, conectividade, maturidade regulatória e ecossistemas digitais os posiciona como os mercados com maior viabilidade operacional e maior potencial de crescimento sustentado.

Contudo, os resultados não dependem apenas da geografia. O que determina o sucesso, em última instância, é quão eficazmente as condições locais se alinham com a estratégia energética e digital de cada empresa, considerando o crescimento projetado, os requisitos de confiabilidade, os mandatos de sustentabilidade e o perfil de risco. Nesse contexto, o parceiro energético torna-se uma variável operacional, não meramente uma consideração contratual.

Para empresas, associar-se à entidade capaz de navegar por marcos regulatórios, processos de licenciamento, interconexões e relacionamentos com autoridades e comunidades locais reduz atrito, acelera cronogramas e mitiga risco em projetos de longo prazo.

Estruturar contratos e projetos que atraiam financiamento bancário, aliado à experiência demonstrada na execução de infraestrutura de grande escala, impacta diretamente os custos, os cronogramas e a continuidade operacional.

Nesse contexto, a Atlas Renewable Energy atua como viabilizador estratégico para operações com demandas energéticas críticas, combinando geração renovável de escala industrial, armazenamento e contratos de longo prazo por meio de mercados com marcos regulatórios divergentes.

No Chile, essa capacidade é exemplificada pelo desenvolvimento de sistemas de armazenamento de grande escala, como o BESS del Desierto, projeto autônomo com capacidade superior a 200 MW/800 MWh, projetado para converter a abundância solar em suprimento firme e despachável, mitigando riscos de congestionamento, curtailment e variabilidade horária.

Isso é complementado por projetos híbridos como Estepa Solar e Copiapó, que integram geração renovável e armazenamento para reforçar a continuidade operacional em ambientes de alta demanda energética.

No Brasil, a Atlas desenvolveu e executou projetos renováveis de grande escala sob contratos de longo prazo para clientes industriais, como o Complexo Solar Boa Sorte (Minas Gerais), com capacidade instalada superior a 438 MWp, estruturado sob esquemas de PPA bancáveis e conectado ao Sistema Interligado Nacional. Essa experiência em interconexão, execução e estruturação contratual fornece base para avançar rumo a soluções energéticas capazes de suportar cargas digitais intensivas, particularmente em hubs emergentes, como o Porto do Açu.

Para clientes, o valor deriva não apenas da tecnologia, mas também de se associar à organização capaz de entregar projetos, desde o planejamento e o licenciamento até operações estáveis.

À medida que a América Latina atrai novos investimentos digitais, uma premissa se torna operacional: a energia para data centers não é um insumo neutro. Define custos, molda a escalabilidade e determina a resiliência empresarial.

Fazer as escolhas certas hoje, em termos de localização, desenho energético e seleção de parceiro significa assegurar eficiência, continuidade e vantagem competitiva de longo prazo.

Este artigo foi criado em parceria com a Castleberry Media. Na Castleberry Media, estamos dedicados à sustentabilidade ambiental. Ao comprar certificados de carbono para o plantio de árvores, combatemos ativamente o desmatamento e compensamos nossas emissões de CO₂ três vezes mais.