O WEF 2026 destacou a ambição renovável. O armazenamento de energia é como torná-la realidade

Na Reunião Anual de 2026 do Fórum Econômico Mundial, líderes políticos e empresariais convergiram em torno de uma mensagem comum: a energia renovável agora é central para a segurança econômica e a competitividade. Deu-se menos atenção a uma pergunta mais difícil: como materializar essa visão quando os sistemas elétricos não conseguem acompanhar o ritmo? Nossa experiência na América Latina mostra como o armazenamento de energia pode traçar uma rota prática da ambição à energia utilizável.

A Reunião Anual de 2026 do WEF (Fórum Econômico Mundial) sinalizou uma mudança fundamental na forma como líderes globais abordam a transição energética. Enquanto a União Europeia reafirmou seu compromisso com a cooperação em fontes renováveis, a China colocou o crescimento verde no centro de seu próximo plano quinquenal e o México posicionou a descarbonização industrial como motor de competitividade e desenvolvimento; a mensagem foi categórica: a energia limpa já não é apenas uma causa ambiental, mas um pilar de segurança econômica, resiliência e crescimento.

Essa reavaliação reflete uma realidade global. Em todo o mundo, o investimento em energia limpa acelera e as fontes renováveis já representam mais de 90% da nova capacidade elétrica instalada globalmente.

Mas, como destacou António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, em sua recente mensagem à Assembleia da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), a espinha dorsal dessa transformação está falhando. A infraestrutura de redes, projetada para outra era, não consegue acompanhar o crescimento da demanda nem absorver a capacidade renovável que já está sendo construída.

Na América Latina, esse desafio é particularmente agudo. O crescimento industrial da região — eletrificação da mineração, expansão de manufatura e um setor de data centers que deve alcançar US$ 14,3 bilhões até 2030 — impulsiona um aumento anual de 6% na demanda elétrica e, ao mesmo tempo, sustenta a expansão econômica. No entanto, a lacuna de infraestrutura ameaça limitar ambos os vetores.

Fechar essa lacuna exigirá uma expansão sem precedentes da infraestrutura elétrica. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o investimento global em redes deveria quase dobrar até 2030, superando US$ 600 bilhões anuais, e mais de 80 milhões de quilômetros de redes deverão ser adicionados ou recondicionados até 2040 — o equivalente a reconstruir completamente o sistema elétrico mundial. Enquanto isso, a inovação tecnológica, no campo de armazenamento de energia, está abrindo um caminho mais imediato.

Armazenamento em baterias como infraestrutura de rede

Antes visto como um complemento caro e marginal para projetos renováveis, o armazenamento de energia passou rapidamente ao centro do planejamento dos sistemas elétricos. A forte redução de custos, o ritmo acelerado de implantação e a evolução dos marcos regulatórios e de mercado transformaram os sistemas de armazenamento em baterias (BESS) de ativos experimentais em infraestrutura comercialmente viável. Em redes congestionadas, hoje os BESS são usados para criar capacidade, gerenciar a volatilidade e sustentar a demanda industrial de maneiras que não eram viáveis — nem econômicas nem operacionais — há apenas alguns anos.

O Chile ilustra essa dinâmica em escala. Em 2024, o país precisou reduzir (curtailment) cerca de 6 TWh de geração solar e eólica — o suficiente para abastecer 2 milhões de lares por um ano — porque as redes de transmissão não conseguiam absorvê-la nem entregá-la quando a indústria precisava. O BESS del Desierto, em operação desde abril de 2025, foi projetado para enfrentar essa restrição. A instalação, que captura 200 MW de geração solar em um sistema de armazenamento de 800 MWh, atende à empresa de energia chilena COPEC por meio de um acordo de 15 anos, fornecendo 280 GWh anuais, reduzindo o curtailment e estabilizando a rede regional.

Em paralelo, o projeto híbrido solar mais armazenamento Estepa, atualmente em construção, combina uma usina fotovoltaica de 215 MW com duas unidades BESS que totalizam 418 MW e quatro horas de armazenamento autônomo, viabilizando o fornecimento contínuo mesmo sem geração solar disponível.

Consumidores industriais de energia, como a Codelco, acessam essa infraestrutura por meio de PPAs, ou seja, contratos de compra e venda de energia, de longo prazo. O maior produtor de cobre do mundo assinou recentemente um acordo de 15 anos para o  fornecimento de energia renovável 24/7, permitindo operações de mineração contínuas com custos fixos e credenciais verificáveis de energia limpa. O acordo evita completamente as restrições da rede: a Codelco acessa energia renovável por meio de infraestrutura dedicada, em vez de competir por capacidade limitada no sistema.

Hoje, o armazenamento está sendo implementado em escala significativa. O Chile conta com cerca de 2 GW de capacidade em baterias em operação ou em construção, com vários gigawatts adicionais em desenvolvimento. O Brasil avança com projetos comparáveis no Nordeste, enquanto os corredores manufatureiros do México avaliam investimentos em armazenamento para apoiar o nearshoring e contornar atrasos de conexão à rede. Em toda a região, os BESS estão passando de implantações-piloto para infraestrutura central do sistema.

Implicações estratégicas para as operações industriais

À medida que os BESS se tornam mais disponíveis, eles estão redefinindo como os  consumidores industriais pensam em risco energético, expansão e competitividade.

PPAs de longo prazo vinculados a ativos solares mais armazenamento transformam a energia de um insumo volátil em um custo operacional previsível. Contratos de 15 a 20 anos protegem as empresas de oscilações extremas do mercado spot, alterando estruturalmente a economia de projetos e o risco de investimento para consumidores industriais, como operadores de mineração que planejam ciclos de extração de décadas ou desenvolvedores de data centers que avaliam instalações de US$ 500 milhões.

O armazenamento de energia viabiliza expansões que, de outro modo, seriam impedidas pelas restrições da rede. A solução solar mais armazenamento pode ser implantada em sites industriais, permitindo que as empresas escalem conforme a demanda de mercado, em vez de esperar por investimento público em infraestrutura. Isso é especialmente relevante para data centers, em quea velocidade de entrada no mercado define a posição competitiva e a disponibilidade de energia tornou-se o principal fator de seleção de localização.

Para a indústria pesada e a manufatura, o fornecimento renovável, respaldado por armazenamento, também ajuda a responder a pressões regulatórias e comerciais crescentes relacionadas à descarbonização. O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia, por exemplo, está transformando a intensidade de carbono em uma exposição direta a custos, e produtores de aço e de materiais precisam demonstrar baixa intensidade de carbono para permanecerem competitivos. A infraestrutura renovável distribuída, apoiada em armazenamento, permite assegurar credenciais auditáveis de energia limpa sem comprometer a confiabilidade operacional.

Tornando a transição em realidade

Os debates no WEF 2026 ressaltaram uma realidade já visível nos principais mercados industriais: a transição energética agora é limitada menos pela ambição do que pela infraestrutura.

Embora as grandes atualizações de rede levem anos para se concretizarem, o armazenamento de energia pode fornecer, desde já, a energia renovável firme e previsível de que as empresas precisam para crescer, descarbonizar e competir.

A tecnologia existe, os mecanismos de financiamento estão comprovados e os históricos operacionais já estão estabelecidos. Para líderes industriais, a pergunta já não é se o armazenamento pode fechar a lacuna entre a ambição renovável e a realidade da rede — comprovadamente, pode.

A questão é quão rapidamente os tomadores de decisão reconhecerão que a estratégia energética se tornou sinônimo de estratégia competitiva e agirão de acordo. Em mercados em que a infraestrutura define quem pode expandir e quem não pode, as empresas que garantem o fornecimento de energia renovável com suporte de armazenamento hoje não estão apenas gerenciando risco energético — estão definindo as regras da competição industrial para a próxima década.


Este artigo foi criado em parceria com a Castleberry Media. Na Castleberry Media, estamos dedicados à sustentabilidade ambiental. Ao comprar certificados de carbono para o plantio de árvores, combatemos ativamente o desmatamento e compensamos nossas emissões de CO₂ três vezes mais.